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transcendendo.......

O silêncio fala mais que mil palavras. O silêncio enche o ar de vibrações que nenhum som é capaz de produzir. Quando nos quedamos diante de nós mesmos e deixamos que a nossa alma flua, não necessitamos de palavras. O silêncio, que a tudo imobiliza, inunda o coração e fala por nós. Por mais que as palavras sejam maravilhosas, as rimas por vezes se quebram e se transformam em soluços. Então, o silêncio pode ser a máxima expressão do nosso íntimo. (Lisieux)

domingo, 16 de maio de 2010

OSHO E A MORTE DEPOIS DA VIDA



Existe vida após a morte?
Essa é uma pergunta errada, sem sentido. A pessoa nunca deve saltar à frente de si mesma; há toda a chance de ela cair de cara no chão.

É preciso fazer a pergunta básica, começar do começo. Minha sugestão é que se faça uma pergunta mais básica.

Por exemplo, você pode perguntar: "Existe vida após o nascimento?"

Isso seria mais básico, porque muitas pessoas nascem, mas poucas têm vida. Só o fato de nascer não é o bastante para você ter vida. Você existe, certamente, mas a vida é mais do que mera existência.

Você nasceu, mas, a menos que renasça em seu ser, você não vive, nunca vive.
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 01:05 0 comentários

SOLITUDE ! Á SÁBIA OPÇÃO................



Estranhos a nós mesmos
Nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. A solitude é nossa verdadeira natureza, mas não estamos cientes dela.

Por não estarmos cientes, permanecemos estranhos a nós mesmos e, em vez de vermos nossa solitude como uma imensa beleza e bem-aventurança, silêncio, paz e um estar à vontade com a existência, a interpretamos erroneamente como solidão.

A solidão é uma solitude mal-interpretada. E, quando se interpreta a solitude como solidão, todo o contexto muda. A solitude tem uma beleza e uma imponência, uma positividade; a solidão é pobre, negativa, escura, melancólica.

A solidão é uma lacuna. Algo está faltando, algo é necessário para preenchê-la e nada jamais pode preenchê-la, porque, em primeiro lugar, ela é um mal-entendido. À medida que você envelhece, a lacuna também fica maior.

As pessoas têm tanto medo de ficar consigo mesmas que fazem qualquer tipo de estupidez. Vi pessoas jogando baralho sozinhas, sem parceiros. Inventaram jogos de cartas em que a mesma pessoa pode fazer o papel dos dois adversários.

Aqueles que conheceram a solitude dizem algo completamente diferente. Eles dizem que não existe nada mais belo, mais sereno, mais agradável do que estar só.

A pessoa comum insiste em tentar esquecer sua solidão e o meditador começa a ficar mais e mais familiarizado com sua solitude. Ele deixou o mundo, foi para as cavernas, para as montanhas, para a floresta, apenas para ficar só. Ele quer saber quem ele é. Na multidão é difícil; existem tantas perturbações...

E aqueles que conheceram suas solitudes conheceram a maior das bem-aventuranças possíveis aos seres humanos, porque seu verdadeiro ser é bem-aventurado.

Depois de entrar em sintonia com sua solitude, você poderá se relacionar, o que lhe trará grandes alegrias, porque a relação não acontecerá a partir do medo.

Ao encontrar sua solitude, você poderá criar, poderá se envolver com tantas coisas quanto quiser, porque esse envolvimento não será mais fugir de si mesmo. Agora, ele terá a sua expressão, será a manifestação de tudo o que é seu potencial.

Mas o básico é conhecer inteiramente sua solitude.

Assim, lembro a você, não confunda solitude com solidão. A solidão certamente é doentia; a solitude é saúde perfeita.

Seu primeiro e mais fundamental passo em direção à descoberta do significado e do sentido da vida é mergulhar na sua solitude. Ela é seu templo, é onde vive seu deus, e você não pode encontrar esse templo em nenhum outro lugar.

Osho, em "Amor, Liberdade e Solitude: Uma Nova Visão Sobre os Relacionamentos"
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 00:33 0 comentários

domingo, 9 de maio de 2010




A Dádiva da Maternidade
por Divani Terçarolli
Publicado em 01 Maio 2010

mae1p.jpgA primeira quinzena de Maio pertence à Touro, primeiro signo do elemento terra, símbolo da fertilidade, e corresponde à Primavera no hemisfério norte.

A vigorosa energia representada por Áries, cresce e toma forma no signo material de Touro. A Primavera significa o despertar da natureza, o crescimento da vegetação que traz fartura e abundância de alimentos. Portanto,

Touro, signo de energia feminina, é o signo da Mãe Terra, fonte de toda a vida, o ventre fértil que acolhe a semente, prepara a gestação, e sustenta o crescimento. Neste sentido, a vaca em lugar do touro, talvez fosse um símbolo muito mais adequado.

Antigamente, maio era chamado de mês das noivas, atualmente é mais conhecido como mês das mães, enquanto no calendário religioso, é dedicado à Virgem Maria, mãe de Jesus. Para os gregos, Rhea, ou Réia, mãe de Zeus, era a deusa da terra, daí os termos mater, mater rhea ou matéria, para significar aquela que nos deu a forma física, que nos permitiu a encarnação num corpo material, para que pudéssemos participar da aventura da vida.

O poeta libanês Gibran Khalil Gibran, em seu poema ‘Os Filhos’, assim resumiu:

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.

Às vezes é difícil aceitar o fato de que os filhos não nos pertencem, que nós apenas lhes fornecemos um veículo físico, mas que não podemos contagiá-los com nossas idéias e nossa visão de mundo.

No simbolismo astrológico, a Lua representa a natureza emocional, a autonutrição, ou aquilo de que precisamos para nos sentir seguros emocionalmente; também representa a influência da mãe, nosso primeiro vínculo com o mundo exterior, nossa fonte de alimento, tanto físico quanto emocional, raiz de nossa sensação de segurança, pois, normalmente, é quem atende nossas necessidades básicas. A qualidade da atenção recebida nessa fase de vida, muito dependente e receptiva, irá determinar o tipo de sentimento de segurança que a pessoa levará consigo por toda a vida.

Pessoas que foram abandonadas ou separadas das mães muito cedo, têm dificuldade em estabelecer vínculos emocionais consistentes; o temor de abandono faz com que elas sempre abandonem, antes de serem abandonadas.

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas,
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonhos.

As dificuldades emocionais e a influência materna, são mostradas pelos aspectos difíceis da Lua no mapa natal. Como fisicamente, a Lua rege as funções digestivas, o estômago e a capacidade de assimilação, esses conflitos emocionais, o estresse, a insegurança, e as dificuldades com a mãe costumam vitimar esses órgãos, e às vezes, até extravasar esses limites, como na ocorrência de acne e outros problemas de pele.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Como serão os filhos das mães adolescentes, que mal saídas da puberdade, engravidam e dão à luz, numa fase de suas vidas em que elas mesmas ainda não amadureceram física e emocionalmente? Como serão essas crianças, filhas de outras crianças? Esse relacionamento horizontal, de quase irmãos, será capaz de suprir as necessidades básicas de amor e proteção de uma criança?

No aconselhamento astrológico, analiso muitos mapas que sinalizam, inequivocamente, conflitos e carências originados na infância; tenho visto adolescentes inseguros e carentes, vivendo suas vidas como se precisassem pedir perdão por haverem nascido, e adolescentes de meia idade, preocupados em corresponder às expectativas e anseios de suas mães, incapazes de romper o cordão umbilical, e de se afirmarem como indivíduos auto-suficientes.

A felicidade do ser humano passa, necessariamente, por um relacionamento equilibrado e amoroso com a figura materna. A mãe que tem uma relação tranqüila e afetuosa com seu filho, possibilita que ele aprenda a nutrir a si mesmo emocionalmente, e o resultado é a independência, a adaptação e a integração à sociedade.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

Enquanto eles precisaram, fomos o seu porto seguro de águas calmas. Vê-los partir, deixá-los lançarem-se ao oceano conturbado da vida, é muito mais difícil… Nessa hora é preciso humildade para nos contentarmos com o segundo plano em suas vidas, aplaudindo suas vitórias e lastimando suas derrotas.

Que o vosso encurvamento, na mão do Arqueiro, seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

A maior dádiva da maternidade é, simplesmente, ver os filhos crescerem e se libertarem da nossa influência. Saber que eles estão prontos, e que podem caminhar sem a nossa ajuda, é a grande recompensa.
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 21:03 0 comentários

terça-feira, 4 de maio de 2010

A Atualidade do filme laranja mecanica



Kubrick e A Laranja Mecânica de Burguess: Jogo de Emoções





Marcus Vinicius da Cunha



(Fonte: http://www.geocities.com/Athens/Atrium/4778/Artigos/Laranja.html)





Stanley Kubrick, recentemente falecido, tem sido foi muito comentado devido a seu último filme, De Olhos Bem Fechados, com Tom Cruise e Nicole Kidmann. Kubrick é sempre lembrado por 2001 – Uma Odisséia no Espaço, uma epopéia de ficção científica realizada em parceria com o escritor Arthur C. Clarke. O que pouca gente sabe é que esse diretor considerava A Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971) seu melhor filme – pelo menos era esta a sua opinião tempos atrás, antes de dirigir o casal Cruise-Kidmann em ardentes cenas de sexo.



A Laranja Mecânica, baseado no romance homônimo de Anthony Burguess, é de fato um filme perfeito, e vale a pena procurá-lo nas locadoras, para vê-lo ou revê-lo. Tudo nele se encaixa com perfeição – cenários, locações, figurinos, atores, fotografia e música – para criar um ambiente aparentemente distante do nosso, um mundo caótico e sombrio em que um bando de rapazes liderados por Alex (Malcolm McDowell) sai pelas madrugadas usando alucinógenos, espancando mendigos idosos e violentando mulheres, entre outros desatinos. Tudo em clima de pura diversão e sarcasmo. Usam um vocabulário eivado de expressões que só eles entendem, mas quem vê o filme, dado o recurso das imagens, logo compreende essa linguagem. Quem lê o livro precisa recorrer ao dicionário de sinônimos providenciado por Burguess, mas logo se acostuma também.



Apesar das aparências, o universo de A Laranja Mecânica é atualíssimo, pois espelha a realidade de nossos centros urbanos repletos de gangs, cada qual com suas gírias, seus delitos violentos e o total desprezo por valores tradicionais. Respeito, solidariedade e cooperação não são as suas bandeiras. É uma realidade que reflete a ausência de controle sobre o comportamento dos jovens nos dias de hoje: as instituições sociais – família, igreja e escola – não os absorvem, deixando-os à mercê de seus instintos mais agressivos e egoístas. É com sentimentos desse tipo que acompanhamos o filme, tomados por uma profunda ira contra as maldades cometidas por Alex e seus amigos. Como na vida real, ansiamos por uma punição exemplar.



Numa de suas investidas, o bando comete um homicídio, o que leva o líder Alex para uma casa de detenção e, dali, para um programa de reeducação manipulado por um político astuto. O programa visa afastar o jovem de tudo aquilo que até então o excitava – sexo e violência – e consiste em obrigá-lo a assistir a cenas em que esses conteúdos estão presentes. A reação de Alex, ao invés de ser de alegria, é de profundo mal-estar, uma vez que os reeducadores o mantém sob o efeito de drogas que provocam náuseas e vômitos.



O fundamento desse programa é a teoria do condicionamento, elaborada pelo fisiologista russo I. Pavlov no início do século XX e desenvolvida mais tarde por J. B. Watson e B. F. Skinner, psicólogos norte-americanos que criaram o paradigma comportamentalista na Psicologia. Estímulos agradáveis – no caso de Alex, sexo e violência – são associados a respostas desagradáveis, como as que são induzidas no organismo do rapaz pelos fármacos. As imagens e a reação física associam-se de tal maneira que mais tarde, mesmo sem a ação das drogas, Alex irá sentir-se mal sempre que presenciar atos de conotação violenta e/ou sexual.



Em A Laranja Mecânica temos um excelente exemplo de como utilizar certos conhecimentos da Psicologia para o exercício do controle social. No filme, os cientistas reeducadores aplicam a punição que o espectador almeja desde os momentos iniciais do espetáculo. Talvez pudéssemos fazer o mesmo com todos os delinqüentes que assombram as noites das nossas cidades. Destruiríamos seu ímpeto agressivo e garantiríamos a tranqüilidade das famílias e dos mais fracos, preservando a ordem social.



Mas Kubrick, seguindo fielmente a história de Burguess, joga com nossas emoções. Alex passa a sentir náuseas também ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, música pela qual nutria verdadeira adoração. Por mero acaso, as cenas detestáveis que Alex foi obrigado a assistir durante o processo de condicionamento eram embaladas, infelizmente, pela Nona de Beethoven. A repugnância física ficou associada não apenas a sexo violento e violência gratuita, mas também a um dos tesouros de nossa cultura. Destruiu-se, assim, o único vínculo que mantinha o jovem líder vinculado aos valores de nossa civilização. Mais ainda, em um momento de extremado sofrimento, Alex atira-se do alto de um prédio em busca do suicídio.



Não era isso o que desejávamos – sofre e arrepende-se o espectador! Queríamos o rapaz punido, sim, mas recuperado, reintegrado à comunidade. Quem sabe ele poderia conhecer uma boa moça, casar-se, ter filhos, um emprego... Pois é esse o destino de Alex sugerido no livro que deu origem ao filme. O rapaz, que sobrevive ao atentado contra a própria vida e fica livre do condicionamento a que fora submetido, observa um casal de namorados e almeja ser como eles, um dia, ter uma vida normal. Podemos interpretar esse final como uma mensagem de Burguess sobre a história que nos conta: as atitudes de Alex e sua gang não passavam de loucuras da adolescência, agora superada. A Laranja Mecânica de Burguess seria portanto não uma crítica à desordem social que impede os jovens de terem melhor perspectiva de vida, mas uma história sobre a natural transição da adolescência para a maturidade.



Mas não é esse o final dado por Kubrick. O diretor interrompe a narrativa de Burguess no momento em que Alex, em recuperação no hospital, recebe a visita do político astucioso que comandou a experiência de condicionamento com o intuito de utilizá-la para fins eleitorais, como se fosse a solução para a violência imperante na sociedade. Dada a repercussão negativa do caso diante da opinião pública, o político propõe então que Alex aceite tornar-se seu garoto-propaganda. Abraçado ao político, o rapaz acena para os jornalistas, sorri de modo sarcástico enquanto tem um devaneio: imagina-se fazendo sexo com uma mulher em um cenário paradisíaco, cercado de nuvens tênues, emoldurado por gentlemen e ladies que o admiram. Percebe que está curado, finalmente!



Ao renegar o final dado por Burguess para a história de Alex, Kubrick nos pergunta se era isso o que queríamos. Queríamos Alex recuperado? Pois o temos! O ex-líder de gang tornou-se, ele também, um político astucioso, um homem que sabe domesticar sua sexualidade e agressividade. Seu sorriso hipócrita nos diz que no fundo ele continua o mesmo, capaz de cometer as mesmas atrocidades, apenas que agora o fará de modo a ser aceito nos ambientes mais sofisticados da sociedade.



Ao jogar com nossas emoções, Kubrick nos pergunta sobre a sociedade que almejamos e sobre os meios que imaginamos empregar para consegui-la.





(*) Este artigo foi publicado no Jornal da Enciclopédia de Filosofia da Educação
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 23:53 0 comentários

segunda-feira, 3 de maio de 2010

É SEMPRE BOM SABER - PSICOLOGIZANDO E DAI !




Uma tentativa de crítica para a Alice de Tim Burton

03/05/2010 por Andreia Santana

Fui assistir Alice no País das Maravilhas (Tim Burton) com o meu filho, neste final de semana. Passada a confusão e a super-lotação dos cinemas, uma semana após a estreia em terras baianas, aproveitei uma matinée, no sábado (matinée é definitivamente o horário de pais e filhos), num ensolarado dia de outono soteropolitano. Ao longo do ano, desde que o filme foi lançado mundialmente, venho lendo avidamente as críticas e comentários. Em agosto do ano passado, inclusive, inspirada pela alicemania que domina o planeta graças ao badalado filme, escrevi um texto sobre o livro de Lewis Carrol (veja link no final deste post). Nada mais justo do que dividir com vocês as minhas impressões sobre este filme e uma história que afinal tem muita relação com o universo feminino. O que segue abaixo é uma mistura de crítica cinematográfica amadora e algumas “filosofagens” pessoais, que estes dias eu ando mesmo impossível, soltando fumacinha de tanto pensar!

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*Delírios de Tim Burton no País das Maravilhas

Tim Burton não para de me surpreender. Quando eu penso que a fórmula para filmes deliciosamente góticos e melancólicos do diretor se esgotou, ele aparece com outra surpresa tão agradável quanto a sua versão para o clássico Alice no País das Maravilhas. E aqui, eu peço licença aos críticos especializados, mas discordo em gênero, número e grau de boa parte do que vem sendo dito sobre esse filme: A Alice de Tim Burton, ao menos para mim, não decepciona nem um pouco. É exatamente o que eu esperava de um filme do diretor e no caso dele, cheguei à conclusão de que não quero surpresas, gosto mesmo é da fórmula e da máxima futebolística: “em time que está ganhando não se mexe”.

Para efeitos da análise a que me proponho, vale deixar claro que o filme de Tim Burton bebe na fonte do clássico de Lewis Carrol, recria o universo onírico do País das Maravilhas, mas conta outra história. Ou, para ser mais precisa, o diretor se permite um exercício que qualquer leitor bem treinado e de imaginação fértil adora fazer: imaginar o que acontece quando a história acaba. Quem nunca ficou pensando se a Cinderela e o príncipe foram mesmo felizes para sempre? Ou se sentiu tentado a escrever (ao menos imaginar) uma continuação para o conto, com a Cinderela tendo seus filhos e vivendo algum outro tipo de aventura, mesmo que aventura aí seja cuidar de uma casa, do marido, arrumar um emprego, ir ao cinema com as amigas, e pagar as contas em dia? Ou então, Cinderela se divorciou, porque o príncipe era um chato, e recomeçou uma vida nova, em outras terras, sozinha ou até com outro príncipe. Por quê não?!

A fantasia é um alimento para a alma humana tanto quanto água e glicose são vitais para o corpo. Mas o que é preciso entender é que, nos tempos atuais, a fantasia flerta com a vida real e busca numa linguagem mais cotidiana, novos adeptos para o reino do sonhar. Morfeu agradece. Como já disse antes, a mitologia clássica é fabulosa e deve ser preservada, mas novas histórias que bebem na fonte dos clássicos são sempre bem-vindas, ao menos para mim. Sendo que o conceito de novo atualmente não pode mais ser dissociado da ideia de recriação.

Pois é isso que Tim Burton faz, ao recriar Lewis Carrol com pitadas da sua própria mitologia pessoal. Transpõe para a tela do cinema um delírio imaginativo de um autor visionário, que há 150 anos (mais ou menos) foi capaz de conceber um mundo colorido e exagerado para explicar a uma criança que os adultos são criaturas muito esquisitas mesmo. Mas, como é Tim Burton, ele não se furta a inserir neste delírio de Carrol, alguns elementos do seu mundo: vilões bonachões e ridículos como a Rainha Vermelha Cabeçuda (reatualização da rainha de Copas do original) e mocinhas sombrias e com um sorriso meio ambíguo, como a Rainha Branca. O reino da Rainha Branca é mais assustador, na minha concepção, do que o coloridíssimo jardim da Rainha Vermelha.

A protagonista - A Alice de Tim Burton tem quase 20 anos, retorna ao País das Maravilhas após fugir de uma cerimônia de noivado, sendo que ela é a noiva e não tem o menor desejo de se casar. Órfã de pai, mulher numa sociedade conservadora (século XVIII), ela quer mais da vida, embora não tenha ainda muita clareza do que quer ou de quem é de fato (a identidade é ponto forte no filme tanto quanto no livro). “Sou a Alice errada”, dito pela personagem num dos momentos do filme, para mim é uma das falas mais significativas e é aí que o diretor se mostra fiel ao princípio que guiou Lewis Carrol. O livro original é a viagem de descobertas de uma criança, perante o mundo adulto e nonsense de seu tempo. O filme é a viagem de autodescoberta de uma jovem inserida num mundo adulto onde não vê sentido e ao qual não faz a menor questão de fazer parte.

A irmã de Alice é casada, uma dama da sociedade, obediente, convencional. Alice quer é transgredir, fugir do destino que a aguarda. Mas para isso, precisa amadurecer e dar-se o direito de enlouquecer um pouco. Quando criança, ela ouviu do pai que as pessoas loucas são as melhores e a loucura aqui é usada como metáfora para as pessoas mais audaciosas, corajosas, que fazem o próprio caminho. Não é à toa que o diretor opta por transformar o Chapeleiro, figura emblemática da obra de Carrol, em um líder excêntrico de uma rebelião contra a Rainha Vermelha.

A loucura do Chapeleiro de Tim Burton é a dos visionários e dos apaixonados. Nesse aspecto, Alice e ele são mais compatíveis do que o noivo “lorde britânico de narizinho empinado” que tentam empurrar-lhe no mundo superior. Johnny Depp, lógico, dá verossimilhança a esse Chapeleiro que se equilibra de forma tênue entre o bobo da corte e o herói, sendo ambos e nenhum deles ao mesmo tempo. Sem falar na construção visual do personagem, belíssima e de uma riqueza de sentidos que só um tratado de semiótica para explicar.

Outra sacada genial do diretor é transformar o País das Maravilhas em submundo. Durante séculos, a ideia de submundo, mundo inferior, foi associada ao inferno, mas vamos dar o nome correto aos bois: O que se convencionou chamar de submundo na verdade é tudo o que foge ao padrão, tudo o que choca a norma socialmente aceita e estabelecida. E é do underground que na maioria das vezes surgem os sopros de renovação, depois incorporados e “legitimados” pelo mundo de cima. Não sem antes serem desinfetados da rebeldia underground. Além disso, nenhuma viagem de autodescoberta que se preze, desde Dante, é válida se não houver uma descida ao “inferno”. Portanto, o submundo, em se tratando de localização geográfica, é o local perfeito para assentar o País das Maravilhas. A fantasia, afinal, tem sua morada no inconsciente, o submundo da nossa consciência.

Em se tratando de técnica cinematográfica, Alice no País das Maravilhas tem o cuidado com cenários e personagens que se vê nas obras de Tim Burton, tanto em animação quanto com atores reais. O que gosto na rica filmografia deste diretor é que para ele, a história, tanto quanto a narrativa (a forma de contar essa história) ou a técnica de filmagem e a linguagem cinematográfica, são igualmente importantes e valorizadas.

Quem vai ao cinema esperando ver a Alice do desenho da Disney, atenuada e infantilizada para as crianças da década de 50, com certeza vai se decepcionar. Além disso, Tim Burton não se satisfaz em recontar à sua maneira uma história que todos nós já conhecemos. Antes, o diretor se dá o direito de recriar Lewis Carrol, mas de avançar para além do País das Maravilhas, desenvolvendo uma trama em que Alice é a protagonista e não apenas a menina que cai no buraco do coelho e descobre um mundo fabuloso.

*Por Andreia Santana, jornalista, blogueira e súdita fiel de Morfeu

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Mais Alice no blog:

Artigo: Mil faces de Alice no país da diversidade (publicado em agosto de 2009)

Post: Mania de Alice (sobre a moda desencadeada pelo filme, em 29/04/2009)

Publicado em Artigo, Cinema, Cultura, Geral, Literatura | Tagged Alice no País das Maravilhas, análise, Cinema, crítica, fantasia, google, Lewis Carrol, Literatura, Tim Burton | Sem comentários ainda
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 23:55 0 comentários

sábado, 1 de maio de 2010

O PODER DA IMAGEM INTERIOR PASMEM! ME VI


(Pessoas podem proteger o ego com auto-sabotagem, diz estudo)
Postado por Karina em 11, January, 2009 em Notícias, Psicologia

“Vivi uma vida longa e passei por muitos problemas, muitos dos quais nunca aconteceram.”

Mark Twain

Pois é! Parece que aquela velha história do “ter medo de ser feliz” não é apenas uma impressão ou mania de perseguição de terceiros! As pessoas realmente preferem se auto-sabotar a correr o risco de sofrer uma rejeição, perder dinheiro, não passar no concurso ou não ser contratado. Às vezes parece ser mais fácil inventar um motivo ou uma desculpa para uma possível derrota, que normalmente é mais psicológica do que real, e assim sabotar a possibilidade de uma vitória, do que encarar os resultados sabendo que fez o melhor. Acredito que é melhor se arrepender de ter feito alguma coisa e não ter dado certo do que se arrepender de não ter feito nada (o que indica que não se correu nenhum risco, ou seja, sequer tentou fazer com que algo desse certo). É sempre muito mais fácil se esconder atrás de desculpas, ou pior, colocar a culpa em pessoas e situações exteriores (”eu não fui bem na prova porque fui em uma festa na noite anterior e os amigos ficaram me oferecendo bebida”) etc. O estudo em questão mostra que, apesar de essa ser uma forma de defesa do ego, no médio e longo prazo acaba sendo muito pior do que seria se a pessoa tivesse enfrentado os seus demônios interiores e conseqüentemente, a situação exterior.

Lembre-se: desistir é fácil; difícil é largar o hábito de desistir.

Do site de notícias Terra:

+++

A cada resultado negativo em uma prova ou teste, a cada prazo estourado, a cada projeto fracassado, surge a oportunidade de experimentar novas desculpas, como o carro enguiçado, o gato doente ou uma emergência no trabalho. Esse tipo de conversa é tão familiar que a maioria das pessoas desconsidera rapidamente as desculpas.

Esse é um dos motivos para que os genuínos artistas no campo da desculpa – e existem milhões deles – não esperem até que um problema qualquer aconteça para praticar a sua magia. Eles já começam a dificultar suas próprias vidas com o maior afinco antes mesmo de estabelecer um objetivo ou de submeter seu desempenho a qualquer crítica.

As desculpas que usam são como que parte deles: “Na verdade, estamos falando de pessoas que sabotam a si mesmas, por exemplo, ao beber pesadamente no dia anterior a um teste, faltarem a treinos ou utilizarem equipamentos de qualidade realmente horrível”, disse Edward Hirt, professor de psicologia na Universidade de Indiana. “Algumas pessoas costumam agir dessa maneira em muitas ocasiões, e frequentemente se torna difícil perceber se estão conscientes do que estão fazendo e dos custos que essas práticas acarretarão”.

Os psicólogos vêm estudando esse tipo de comportamento desde pelo menos 1978, quando Steven Berglas e Edward Jones começaram a utilizar a expressão “auto-sabotagem” para descrever os estudantes participantes de um estudo que optaram por usar uma droga que supostamente inibiria seu desempenho em uma prova (ainda que a informação não procedesse e a droga em questão na verdade fosse inerte).

Essa pulsão vai bem além de um simples rebaixamento generalizado de expectativas e tem mais a ver com a proteção da autoimagem do que com os conflitos psicológicos enraizados no desenvolvimento inicial da personalidade, em sentido freudiano.

Pesquisas recentes ajudaram a esclarecer não só que tipo de pessoa se sente mais inclinada a sabotar suas próprias chances como as consequências dessa atitude.

No conceito original, Berglas e Jones identificaram a tendência a autossabotagem em estudantes que foram informados de que haviam passado com nota máxima em um teste composto por perguntas impossíveis de responder. Os participantes haviam conseguido “sucesso” sem que soubessem como ou por quê.

“Estamos falando de pessoas que foram informadas de que eram brilhantes, sem saber de que maneira essa inferência foi derivada”, disse Berglas, que hoje conduz um programa de treinamento de executivos na região de Los Angeles.

Ele compreendia perfeitamente o impulso. Havia começado a usar drogas quando estava no segundo grau, poucas semanas antes da data marcada para o seu exame de avaliação do Segundo Grau, no qual a expectativa de desempenho para ele era de que conquistasse a nota máxima. E sua irresponsabilidade juvenil serviu de primeira semente à teoria.

Essa tendência ou impulso de agir de maneira autodestrutiva parece mais forte entre os homens do que entre as mulheres. Em pesquisas, Hirt e outros avaliaram a tendência por meio de um questionário no qual pediam que os participantes indicassem até que ponto as 25 declarações que o teste oferecia serviam como descrição de seu comportamento – por exemplo, “eu tento não me envolver demais em atividades competitivas porque assim evito sofrer demais caso eu saia derrotado ou apresente mau desempenho”.

Os homens tendiam a apresentar concordância mais forte com essas afirmações e a se sabotar mais seriamente em estudos de laboratório. Mas caso surja a oportunidade, e se os motivos forem considerados válidos pelos seus critérios pessoais, a maioria das pessoas gosta de alegar desvantagens.

Em estudo publicado no terceiro trimestre de 2008, Sean McCrea, professor de psicologia na Universidade de Konstanz, Alemanha, descreveu experiências nas quais ele manipulava os resultados dos participantes em diversos testes de inteligência. Em alguns deles, os participantes podiam escolher entre se preparar para realizar os testes ou fazer parte do grupo “sem treinamento”.

McCrea constatou que aqueles que obtinham maus resultados atribuíam o problema à falta de prática, se pudessem. Além disso, mencionar essa desvantagem servia para atenuar o abalo que sua autoconfiança sofreria devido ao mau resultado.

Mas alegar desvantagens também tem outro efeito. Em uma experiência diferente, os participantes que tinham uma boa desculpa para seus maus resultados – ruídos incômodos durante o teste, transmitidos pelos fones de ouvido que todos os participantes usavam – se sentiam menos motivados para se preparar para um novo teste do que as pessoas que não tinham desculpa.

“Alegar uma desvantagem permitia que as pessoas com maus resultados declarassem que não haviam se saído tão mal, levando todos os fatores em conta. Elas chegavam a alegar que haviam se saído bem”, disse McCrea em entrevista por telefone. “Ou seja, elas não tinham nenhum impulso ou ímpeto de melhora”.

O rubor causado pelo embaraço serve, em muitas ocasiões, como a luz que ilumina a motivação. Em sua forma de estratégia de curto prazo, a autossabotagem ou alegação de desvantagens não passa de um exercício de autoilusão.

Estudos envolvendo alunos de universidades descobriram que as pessoas que costumam sabotar a si mesmas – cabulando muitas aulas, perdendo prazos ou deixando de ler o material requerido – tendem a se classificar como parte dos 10% mais inteligentes entre os alunos de suas classes, ainda que suas notas costumem ser mais baixas.

E as pessoas que conquistam sucesso apesar de seu apego pela desordem tendem tipicamente a se apegar às supostas desvantagens, seja o uso de bebidas, de drogas, ou o desrespeito às regras.

“Com o sucesso, as expectativas aumentam e o comportamento dessas pessoas se torna ainda mais extremo”, diz Berglas, autor de um livro que ensina as pessoas bem sucedidas a superar os momentos de desgaste.

Mas a tática não ilude muita gente. Em estudo recente, James McElroy, da Universidade Estadual do Iowa, e J. Michael Crant, da Universidade Notre Dame, pediram que 246 adultos avaliassem o comportamento de personagens em diversas histórias comuns em locais de trabalho. As impressões dos participantes quanto aos personagens começavam a decair depois da segunda vez em que estes mencionavam uma desvantagem como desculpa.

“O que aconteceu aqui é que, se a pessoa recorre com freqüência a esse tipo de desculpa, os observadores atribuem o desempenho que a pessoa apresenta a ela mesma, e consideram que as desculpas constantes são parte de sua personalidade, ou seja, a pessoa é chorona”, escreveu McElroy em mensagem de e-mail. “Mas é possível evitar essa impressão se outra pessoa fornece desculpas a você – e, surpreendentemente, mesmo que isso aconteça com frequência”.

Essa é outra tendência bem conhecida entre os mais experientes criadores de desculpas: a melhor desculpa é a que vem de terceiros. A coisa mais importante para muitos é, não importa o método, evitar considerar a explicação alternativa.

“É como aquela fala do velho filme Sindicato de Ladrões, com Marlon Brando: “eu poderia ter disputado o título”, disse Hirt. “Em longo prazo, para algumas pessoas pode ser mais fácil conviver com isso do que saber que fizeram o melhor que podiam e fracassaram”.
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 22:35 2 comentários

MEU MESTRE JUNG

Jung e a Jornada do Auto-descobrimento
Postado por Karina em 10, June, 2009 em Documentários, Psicologia, Psicologia Profunda
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“Noli foras ire, in interiore homine habitat veritas” – “Não saias, é no interior do homem que habita a verdade.”

(Citado por Carl G. Jung, em “Memórias, Sonhos, Reflexões”)

“Há algo de, como direi, exultante, em colocar-se do lado da vida, em vez de ficar do lado das ideias protetoras. Quando todas essas ideias protetoras sobre a vida às quais você vem se apegando sucumbem, você compreende que coisa horrível é isso, e você é isso. Esse é o arrebatamento da tragédia grega. O que Aristóteles chamava de catarse. Catarse é um termo ritual e representa a eliminação da perspectiva do ego: destruir o sistema do ego, destruir a estrutura racional. Esmagá-lo e deixar que a vida – boom! – surja. O ímpeto dionísico esmaga tudo. E assim você se sente purgado do seu sistema egocêntrico de julgamento, pelo qual está vivendo o tempo todo.”

(Joseph Campbell, mitólogo norte-americano)

“Tudo flui.”

(Heráclito de Éfeso, filósofo pré-socrático)

“Sabia que esta pequena chama era a minha consciência, a única luz que possuía. O conhecimento de mim mesmo era o único e maior tesouro que possuía. Apesar de infinitamente frágil comparado aos poderes da sombra, era uma luz, minha única luz.”

(Carl Gustav Jung)

Navegando no Youtube encontrei o que parece ser um trecho de um documentário entitulado “Carl Gustav Jung e a Jornada para o Auto-Descobrimento“. O vídeo em questão fala um pouco sobre a vida do psiquiatra suíço, pai da Psicologia Analítica (ou Psicologia Profunda), além de comentar o surgimento de algumas de suas principais teorias, como a do Inconsciente Coletivo (o termo que me inspirou a criar esse blog! ;-) ), os tipos psicológicos etc.

O vídeo é interessante também por trazer informações sobre o trabalho de Jung durante a Segunda Guerra, numa Alemanha dominada pelo regime nazista. Essa suposta “colaboração” de Jung com os nazistas (muito mal compreendida, diga-se de passagem), nada mais foi que uma tentativa por parte do psiquiatra, de manter viva a própria psicologia na Alemanha.

Sempre tive Jung como um dos meus pensadores preferidos. Ele se dedicava a estudar e compreender questões que não só na época dele, mas ainda hoje, são colocadas de lado como sendo “meras superstições e crendices”. Temas como espiritualidade, Deus, sonhos, símbolos, metáforas, paranormalidade, experiências pessoais de “mistério”, disciplinas esotéricas, religiosidade, etc; foram todos assuntos contemplados e discutidos em suas obras. Uma pena Jung e suas ideias serem tão subestimadas dentro da Psicologia…

O trecho está dividido em duas partes. A legenda não está colada ao vídeo, e sim é adicionada pelo próprio “Youtube”, no momento em que se assiste. Espero que não haja dificuldades na configuração das legendas.

Parte 1:

Parte 2:
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 22:16 0 comentários

FLEXIBILIDADE , SOMA DA VIDA....



"“Permaneça sempre aberto e experimentador, sempre disposto a
caminhar em uma trilha que você nunca percorreu antes. Quem sabe?
Mesmo se ela provar ser inútil terá sido uma experiência.”" — Osho
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 22:11 0 comentários


Ausência de palavras

Posted: 29 Apr 2010 04:45 AM PDT
Se possível, viva uma experiência e não a fixe com quaisquer palavras, porque isso a tornaria estreita.

Você está sentado... é um anoitecer silencioso. O sol se foi, e as estrelas começaram a aparecer. Simplesmente esteja presente. Nem mesmo diga: "Isso é belo", porque, no momento em que você diz que algo é belo, ele não é mais o mesmo.

Ao dizer belo, você está introduzindo o passado, e todas as experiências que você disse serem belas coloriram a palavra.

Por que trazer o passado? O presente é tão vasto, e o passado tão estreito. Por que olhar por um buraco na parede, se você pode sair e olhar todo o céu?

Tente não usar palavras, mas, se precisar, seja muito cuidadoso em sua escolha, porque cada palavra tem uma nuança própria. Seja muito poético a esse respeito.

Osho, em "Osho Todos os Dias"
Imagem por Per Ola Wiberg ~ Powi
www.palavrasdeosho.com
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 20:57 0 comentários

NÃO DEIXE PARA AMANHÃ O QUE ´PODE FAZER HOJE



www.AldoNovak.com.br
Canal Aldo Novak no YouTube http://www.youtube.com/AldoNovak

"Adiar uma coisa fácil torna ela difícil. Adiar uma coisa difícil torna ela impraticável"
Putting off an easy thing makes it hard. Putting off a hard thing makes it impossible."-- Charles Wils

.
Na tradução que fiz acima, traduzi "impossible" como impraticável (o correto seria impossível), porque impraticável ainda é possível, mas muito difícil, algumas vezes muito caro e noutras muito doloroso. Impossível é...bem, impossível. Algo que não pode ser feito mesmo que usemos todos os recursos existentes. É coisa de outro universo.

Mas impraticável é quase isso. E sei do que estou falando, porque se tenho um defeito evidente é a mania de adiar as coisas. Meus contadores sabem disso (este ano deixei minha declaração de Imposto de Renda para o último dia!). Tenho ótimas desculpas. Afinal, ficar entrando e saindo de hospitais por quatro meses e fazer três cirurgias de pedras nos rins "bagunçaram" minha agenda. Mas são apenas desculpas que não mudam a realidade.

Eu adiei.

Embora haja obvias vantagens em fazer isso, há também óbvias desvantagens. A principal é que, volta e meia, algo que seria muito fácil de ser feito, no passado, se transforma em um tormento, algum tempo depois. Quase impraticável.

É possível argumentar que em alguns casos adiar é um sistema melhor, mas será somente um argumento, Não muda a realidade de que adiar é sempre arriscado e geralmente custa muito mais caro do que fazer o que tem que ser feito logo de cara. Além disso, mostra preguiça, falta de foco e ainda demonstra que não estamos dando valor ao mais importante.

Tenho uma amiga, PhD, que produziu o trabalho final da universidade um ano antes da data de entrega. Quanto todos os alunos ainda estão pensando em como fazer para entregar a tempo, ela já estava um ano a frente de todos.

Mas há um truque que vou partilhar com você - e que tenho usado, cada vez mais: comece seu dia fazendo o mais importante (seja fácil, ou difícil). Se você só conseguir fazer uma coisa no dia, que seja essa mais importante. As outras podem ficar para depois.

Fazer agora aquilo que é mais importante, dará uma sensação de realização, de foco, de liderança da própria vida e - mais importante - vai tornar seu futuro muito mais fácil e simples, já que não haverá uma série de coisas impraticáveis para fazer.

Como disse Charles Wilson, "adiar uma coisa fácil torna ela difícil. Adiar uma coisa difícil torna ela impraticável".


Agora, pense comigo e responda francamente:

O que você está adiando que vai fazer hoje, como principal coisa do dia?
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 20:40 1 comentários

quarta-feira, 28 de abril de 2010

É SEMPRE BOM SABER - PSICOLOGIZANDO E DAI !



UMA REFLEXÃO SOBRE O FILME "IDENTIDADE"
por Ademir Pascale - Crítico de Cinema e Editor do Portal Cranik - ademir@cranik.com
Clique Aqui e conheça a Equipe Cranik


IDENTIDADE -

"É incrível sabermos do que a mente humana é capaz de criar, sendo história ou realidade, o que me leva ao mundo dos estudos esotéricos, ufológicos e sobrenaturais[...]"

IDENTIDADE (IDENTITY): Assisti ontem pela terceira vez o longa Identidade (Identity) e tenho que dizer que essas histórias que tratam da mente humana, me chamam a atenção, assim como os filmes que comentei no especial "Filmes de Suspense". A dualidade retratada em filmes como "O Amigo Oculto" é demais interessante e, diferente do "O Clube da Luta" (1999) estrelado por Brad Pitt que David Fincher usa a dupla personalidade, mas, "Identidade" vai "bem" mais além, criando múltiplas personalidades. Imagine uma pessoa com múltiplas personalidades, sendo uma criança perversa, prostituta, bandido, detetive etc., e, sem ao menos saber quem realmente é? É isso que encontramos em Identidade, um filme que faria Sigmund Freud pensar por algumas horas, ou quem sabe, dias. Minha paixão por filmes iniciou-se quando comecei a estudá-los e observá-los com mais precisão, pois não acho que um filme é mera diversão. Bom, se você quiser se aprofundar no tema que trata da dualidade humana, recomendo os livros (tenho quase certeza que você já deve ter lido e, caso sim, releia), Frankenstein de Mary Shelley, O Médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson e Clube da Luta de Chuck Palahniuk.

É incrível sabermos do que a mente humana é capaz de criar, sendo história ou realidade, o que me leva ao mundo dos estudos esotéricos, ufológicos e sobrenaturais. Muitos autores ou diretores buscaram e ainda buscam explicações sobre o desconhecido e, um deles foi o poeta e escritor português Fernando Pessoa, o qual exercia fortes ligações com o ocultismo e o misticismo, destacando o seu poema hermético "No Túmulo de Christian Rosenkreutz", além de ter criado os "Heterônimos" Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e Ricardo Reis. Heterônimo é bem diferente de pseudônimo, pois cada heterônimo tem uma personalidade diferente (identidade diferente). Enfim, nem todos apreciam filmes ou obras deste gênero, preferem a ação desenfreada misturada com os efeitos especiais hollywoodianos — respeito os gêneros e o gosto de cada um, afinal, somos diferentes em classes sociais e crença; o que me entristece é que muitos ainda não respeitam essa escolha, seja no quesito religião, política ou mesmo gêneros de filmes. A Cinematerapia deveria ser mais aprofundada e incentivada, pois é algo sério que lida com a massa, e quem sabe, estudada nas escolas e universidades como algo para aprimorar o conhecimento humano.

O roteiro do longa Identidade é muito bem trabalhado e rico em detalhes; gosto da cena em que um dos protagonistas estende a mão para sentir as gotas da chuva, sendo que na realidade, é tudo uma invenção da mente do criador das múltiplas personalidades, algo real para a sua mente(?). Assista o trailer abaixo:


IDENTIDADE (IDENTITY)

Crítico: Ademir Pascale é ativista cultural, crítico de cinema, editor e criador do portal Cranik www.cranik.com , www.divulgalivros.org e do projeto de inclusão social e cultural "Vá ao cinema!". Contatos para matérias em Jornais, Sites ou Revistas, e-mail: ademir@cranik.com
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 20:42 0 comentários

A RESPONSABILIDADE É SUA........ACEITE!

"“Freud sugere responsabilizar nossos pais por todas as falhas da nossa vida, e Marx sugere responsabilizar a classe social privilegiada. Mas o único responsável é o próprio indivíduo. É o que há de proveitoso na idéia hindu do carma. A sua vida é fruto do seu próprio fazer. Você não tem ninguém a quem se responsabilizar, exceto a você mesmo.”" — Joseph Campbell

Postado por Liliam Padilha Ferreira às 00:06 0 comentários

terça-feira, 27 de abril de 2010

AUTO-CONTROLE X AUTOCONTROLE......



(Autocontrole é contagioso, sugere estudo)
Postado por Karina em 19, January, 2010

Quando você decide não consumir de alimentos insalubres ou aquele drink extra, outros podem merecer algum crédito. Os resultados de uma série de estudos realizados pelo Instituto de Psicologia da Universidade da Geórgia em um ambiente de laboratório sugerem que o autocontrole é contagioso. Nos estudos, os pesquisadores descobriram que quando as pessoas assistem ou até mesmo pensam em alguém com um bom autocontrole é mais provável que mostrem a mesma restrição. O novo estudo foi publicado na revista científica Personality and Social Psychology Bulletin site.

O estudo mostra que o contrário também é verdade – as pessoas com autocontrole ruim podem influenciar negativamente outros. De acordo com os pesquisadores, a influência é tão poderosa que apenas de ver o nome de alguém com bom ou mau autocontrole piscando na tela por 10 milissegundos, o comportamento dos voluntários mudou.

“A mensagem deste estudo é que escolher as influências sociais que são positivas podem melhorar o seu autocontrole“, disse ao site Live Science a cientista Michelle Vandelle, professora de psicologia na Universidade da Geórgia. “E com a exibição do seu autocontrole, você está ajudando outros ao seu redor a fazer o mesmo.”

No entanto, uma vez que os estudos foram realizados em um ambiente de laboratório, mais pesquisas em ambientes reais serão necessárias para verificar os resultados.

As pessoas tendem a imitar o comportamento dos que estão ao seu redor, e os maus hábitos – como o tabagismo e uso de drogas e alimentação desregrada – tendem a se espalhar através de redes sociais. Mas, de acordo os cientistas, o estudo em curso é pensado para ser o primeiro a mostrar que o autocontrole é contagioso entre os comportamentos.

Isso significa que pensar em alguém que exerce o autocontrole para se exercitar regularmente, por exemplo, pode fazer com que você cumpra metas que exigem sua dedicação – suas metas financeiras, de carreira ou qualquer outra.

Experiências

As conclusões são o resultado de cinco estudos independentes realizados ao longo de dois anos. Em um dos estudos, os pesquisadores designaram aleatoriamente 36 voluntários para pensar em um amigo com autocontrole bom ou ruim. Aqueles que tinham de pensar em um amigo com bom autocontrole persistiram por mais tempo em uma tarefa manual comumente utilizada para medir este comportamento, enquanto o outro grupo desistia com mais facilidade da tarefa.

Outro estudo envolveu 71 voluntários que assistiram um grupo de pessoas exercer autocontrole, escolhendo uma cenoura em vez de um cookie quando os dois alimentos eram oferecidos. Enquanto isso, outros participantes assistiram o grupo que comia biscoitos em vez da cenoura. Os voluntários não tinham nenhuma interação com o grupo que provava os alimentos, mas seu desempenho foi alterado mais tarde em um teste de autocontrole, dependendo de que grupo foram aleatoriamente designados a assistir.

E em um terceiro experimento, 42 voluntários listaram amigos com bom e mau autocontrole. Depois, foram convidados a completar um teste computadorizado concebido para medir a autocontenção. Durante a tarefa, a tela do computador piscava um dos nomes escolhidos aleatoriamente por 10 milissegundos – demasiado rápido para ser lido, mas tempo suficiente para trazer os nomes subliminarmente à mente. Aqueles que foram ‘imunizados’ com o nome de um amigo disciplinado alcançaram resultados melhores.

A cientista Michelle Vandelle disse que a magnitude da influência pode ser significativa o suficiente para ser a diferença entre comer um biscoito extra em uma festa ou não, ou decidir ir para a academia depois de um longo dia de trabalho. O efeito não é tão forte que absolva as pessoas de responsabilidade por suas ações, ela explicou, mas é um empurrão em direção ou para longe da tentação. “Esta não é uma desculpa para culpar os outros por nossas falhas. (…) A decisão é de cada um”, disse Vandelle.

Fonte: Terra
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 23:58 2 comentários


(Estudo: sonho tem papel importante na consolidação da memória)
Postado por Karina em 27, April, 2010 em Notícias, Psicologia


Um novo estudo coordenado por pesquisadores do Beth Israel Deaconess Medical Center, nos Estados Unidos, indica que os sonhos podem ser a forma que o cérebro adormecido tem de dizer que está ocupado em pleno trabalho de consolidação da memória. A pesquisa foi publicada na edição on-line da revista Current Biology.

De acordo com Robert Stickgold, um dos autores do estudo, os sonhos são a maneira de o cérebro processar, integrar e realmente compreender novas informações. Os cientistas examinaram 99 voluntários que foram submetidos a atividades em um videogame em três dimensões.

Sonhar...

Após o treinamento inicial, os participantes foram divididos em dois grupos: o primeiro tirou um cochilo com média de 90 minutos e o segundo permaneceu acordado em atividades tranquilas. Em diversos momentos, os integrantes do segundo grupo eram questionados sobre o que estavam pensando. Os que tiraram uma soneca diziam depois o que lembravam de seus sonhos.

Cinco horas depois, os participantes repetiram o procedimento completo, com o exercício virtual e a sequência com soneca ou atividade tranquila. Os que se mantiveram acordados não mostraram melhoria no rendimento dos exercícios feitos posteriormente, ainda que tivessem pensado no mesmo durante o período de descanso, o que, em teoria, daria mais chances de se sair melhor.

Dos que dormiram, aqueles que não descreveram sonhos relacionados ao mundo virtual no qual interagiram também não apresentaram melhoria no aproveitamento dos exercícios. Mas os que sonharam com os ambientes tridimensionais tiveram uma melhoria considerada dramática, dez vezes superior aos que dormiram e não sonharam com o exercício. Os resultados indicam que não apenas o sono foi necessário para consolidar as informações, mas que os sonhos se mostraram como uma espécie de reflexo da atividade cerebral intensa nas tarefas de consolidação da memória.

“Mas não estamos dizendo que quando se aprende algo é o sonho o responsável. Em vez disso, aparentemente, quando temos uma nova experiência ela dispara uma série de eventos paralelos que faz com que o cérebro consolide e processe as memórias”, disse Stickgold.

Com informações da agência Fapesp

Fonte: Terra
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 23:52 1 comentários

O PODER DA PEDRA FILOSOFAL, AMO A VIDA........



SENTADA NA PEDRA ......TRANSCEDENDO





NÃO ESQUEÇAMOS QUE O QUE FAZEMOS NA VIDA AQUI, ECOA NA ETERNIDADE!
Postado por Liliam Padilha Ferreira às 01:22 0 comentários

JUNGIANA ATÉ O FIM

OUTRAS TÉCNICAS PSICOTERÁPICAS










Manual de Psicoterapia
E. Miray López
Editora Mestre Jou
3º Edição - 1967


Princípios, técnica, indicações e limitações da psicoterapia complexa de Jung. - Estrutura da psique. - Os arquétipos. - Fases da individuação etc.

Se a psicologia individual adleriana pode ser criticada por não ser propriamente individual (ainda que de todas as escolas psicológicas modernas seja a que leva mais em conta a pressão que a comunidade social exerce sobre o indivíduo e construa a caracterologia deste de acordo com normas excessivamente simplistas e rígidas), o que nao impede seja manejável e atrativa quando enfrentamos casos de pouca complicação psicológica; a psicologia complexa de Jung - e ao sistema psicoterápico que dela deriva - não podemos fazer-lhe a censura de não corresponder em seu conteúdo ao que no título promete: é não só complexa, mas também confusa. Mais útil seria, como veremos, saber escolher e selecionar devidamente os casos a que devemos aplicá-la.

Em linhas gerais vimos que as concepções de Adler serviam de um modo especial - ainda que esta não seja a opinião de seus fiéis adeptos - para o trato com personalidades infantis, imaturas que, com falta de auto-suficiência e de segurança, tentam produzir impressão a qualquer preço. Ao contrario, a zona de ação da psicoterapia junguiana, é a das pessoas maduras próximas da crise evolutiva ou submergidas nela, que, ao reverem a sua vida e seus fins, se dão conta de que se equivocaram em seu caminho e não acertam em encontrar a sua rota ou acreditam que seja demasiado tarde para segui-la. Tais pessoas requerem, muito mais que as jovens, perspectivas que as consolem de seu desgosto íntimo pelo "tempo perdido e que já não voltara" e, de outra parte, as preparem para enfrentar a idéia de sua morte próxima, idéia esta que se apresenta cada vez mais clara. Quando de um modo espontâneo não existe nelas um sentimento religioso suficientemente intenso para lograr a sua transcendência nêle, falham os princípios psicoterápicos correntes; o ceticismo e o pessimismo não propiciam em tais enfermos uma relação fácil, nem tampouco é possível oferecer-lhes grandes coisas nem satisfações a sua libido, em plena regressão hormonal. E então precisamente que essa espécie de credo religioso-científico, sem maiores pretensões, pode alcançar a sua máxima eficácia curativa: se a psicanálise freudiana gira em redor do descobrimento do complexo edipiano e da liquidação dos sentimentos de culpa, a psicoterapia junguiana leva ao descobrimento da anima materna e à realização, embora tardia, da própria vocação (voz interior) que nela acha suas raízes. Tudo isso pressupõe a posse de um sistema complicado de conceitos, alguns dos quais têm um conjunto de raízes empírico-experiências e outros, infelizmente, são meras abstrações mítico-especulativas.

Vamos tentar uma síntese de tal sistema, ajudando-nos com alguns esquemas elaborados por uma das discípulas prediletas do mestre de Zurique, a Dra. Jacobi:


ESSÊNGIA E ESTRUTURA DA PSIQUE

Para Jung, a psique tem tanta realidade quanto o soma (corpo) e apresenta uma "estrutura" não menos complexa que a deste, ainda que suas dimensões sejam virtuais. A psique (termo com que Jung designa o aparelho psíquico freudiano) acha-se dividida em zonas ou estratos, dos quais,
a maior parte corresponde a processos que não tem a propriedade de refletir-se sobre si e, portanto, são inconscientes, ao passo que a outra parte possui tal característica.

Quatro são as zonas que se devem distinguir na psique:

a) a zona do ego (também chamada egótica, em que nasce e atua a consciência da existência;

b) a zona do conhecimento geral;

c) a zona do inconsciente pessoal;

d) a zona do Inconsciente coletivo. Esta ultima subdivide-se em duas : a dos processos que se podem fazer emergir da consciência (e são portanto cognosciveis) e a dos que sempre permanecerão ignorados, por não terem a dita possibilidade.

O inconsciente com esses três estratos (pessoal, coletivo, cognoscível e coletivo incognoscível) é mais antigo que a consciência, a qual procede dele e representa apenas uma parte superficial e inconstante do funcionamento psíquico. Esse inconsciente tende a compensar as atitudes da zona consciente para conservar tanto quanto possível a síntese individual, a qual, além disso, é determinada e mantida pelo ajustamento adequado das funções fundamentais da psique, que são quatro: pensar, intuir, sentir e sensacionar (Denken, Intuieren., Fuhlen, Empfinden). Com o nome de "função psíquica" designa Jung "uma atividade psíquica completamente independente de seus conteúdos circunstanciais e persistentes de sua natureza através do tempo". As duas mais conhecidas dessas funções (pensar e sentir) são denominadas racionais; o pensar serve para a distinção entre o verdadeiro e o falso, ao passo que o sentir permite a avaliada do agradável (prazer) e desagradável (desprazer). Ambas as funções excluem-se como atitude e compensam-se na individualidade, (pela oposição consciente-inconsciente, isto e, quanto mais aparece uma no piano consciente, mais se reprime e entra em tensão a outra no inconsciente).

As outras duas (intuir e sensacionar) são consideradas irracionais : a sensação "objetiva" serve à chamada fonction du réel dos franceses. A intuição apreende ou capta essa realidade imediata - não reacional, mas vital - podem sem a ajuda do aparelho sensorial corrente, isto e, em virtude de uma peculiar percepção interna (ou cripltestésica). Enquanto o possuidor de um tipo sensorial (ou sensacionista) nota os detalhes de um conteúdo real, o possuidor do tipo intuitivo não dá atenção a eles, porém vivencia, de chôfre (d'emblée) o seu sentido íntimo ou essência e suas projeções na existência temporal e espacial. Também esse par funcional se exclui e ao mesmo tempo se compensa reciprocamente na dinâmica psico-individual. Para representar esquematicamente o imbricamento dessas quatro funções, as suas possíveis interferências e combinações, Jung as integra no chamado sinal "Taigitu" dos chineses, na forma seguinte:

Geralmente predomina em cada individuo uma delas (função superior) e a oposta (inferior) permanece mais ou menos latente no inconsciente. No esquema transcrito, a zona branca indica o território plenamente consciente e a raiada assinala o campo inconsciente; de acordo com a representação gráfica, a função superior é, neste caso, o pensar, achando-se reprimido o sentir. Intuir e sensacionar - para esse suposto indivíduo - funções auxiliares (a primeira aparece aqui latente, ao passo que a segunda é manifesta). São poucos os indivíduos que pertencem a um tipo puro (caracterizado pelo predomínio absoluto de uma dessas funções sobre o resto), sendo o comum achar tipos mistos (pensadores empíricos, pensadores especulativos, afetivo-intuitivos, afetivo-sensoriais etc.).

Ao complexo funcional que se forma no seio da individualidade como resultado de um compromisso entre esta e a sociedade, chama Jung persona (dando a esta palavra o seu. primitivo significado de máscara). O eu parece assim intercalado entre ela e o inconsciente, oscilando entre os dois mundos (subjetivo e objetivo), entre os quais se consome o seu vivenciar. A esse respeito Jung coincide parcialmente com Stern, de cujas concepções difere, contudo, em aspectos básicos, como veremos adiante.

Outra semelhança entre ambos os psicólogos no-la dá o fato de que admitem eles, em relativa oposição a Freud, uma causalidade psíquica fechada, de sorte que a energia psíquica individual aparece em suas concepções como uma quantidade constante, susceptível, porém, de transformar-se e de deslocar-se no espaço (introversão e extroversão) e no tempo (progressão e regressão), criando assim um sistema de coordenadas pessoais inteiramente superponível, mas distinto das coordenadas físicas.

Jung volta a sua originalidade quando admite, além disso, que o processo de individuação a uma síntese de contrários, e que em sua dinâmica intervem (como ocorre na física) a lei de entropia, porém a diferencia do mundo inanimado, no da alma (que a uma realidade independente ou coisa em si para Jung), existindo a possibilidade de uma transformação reversível (consciência-inconsciente) graças ao eixo das chamadas funções auxiliares. No curso da vida individual - e nisto coincide agora a psicologia complexa com as idéias de Kretschmer - observa-se, geralmente entre os 40 e 50 anos, isto e, em tome da crise involutiva, a inversão da fórmula do equilíbrio psico-individual, em virtude da qual o introvertido se extroverte e vice-versa, ao mesmo tempo que a função reprimida passa a ser guia.

Os "complexos" - cujo estudo designa ou qualifica esta psicologia - são partes desprendidas da personalidade psíquica, grupos de conteúdos mentais que se fizeram independentes da ação do eu e funcionam autônoma e intencionalmente, com um núcleo submerso no inconsciente e uma parte secundária que emerge na consciência. Quando desce o nível desta a possível que se mostre também a parte oculta, mas então o indivíduo experimenta sua aparição como algo alheio a ele, como um corpo estranho, perturbador de sua liberdade e de seus propósitos voluntários. Jung sustenta que nem todos os complexos são patológicos nem tampouco derivam de uma regressão inicial da libido (como pensa Freud) e que às vezes são formações primitivamente inconscientes (talvez pré-individuais, isto é, provenientes do inconsciente herdado ou coletivo-ancestral) que não chegaram a escalar totalmente o pináculo da zona claramente consciente.

A via régia para a exploração do inconsciente é o sonho, mas também o é a análise das visões, devaneios e fantasias. Jung admite a existência de vivencias, denominadas "revelação", nas quais, subitamente, e quase com força alucinatória, aparece diante do indivíduo uma imagem ou uma idéia totalmente sem conexão habitual com sua corrente de pensamento e apresentada nele à maneira de um aerólito (que houvesse seguido uma rota invertida) ; tais conteúdos psíquicos são quase sempre expressões ou símbolos representativos dos arquétipos, os quais por sua vez, nos introduzem no domínio da chamada psique objetiva (em oposição à psique subjetiva ou egótica). Tais símbolos são multívocos (condensam muitas significações) e tem, freqüentemente, um caráter profético (H).


OS ARQUÉTIPOS JUNGUIANOS

Muito escreveu Jung acerca de tais arquétipos (talvez demasiado, pois com freqüência incorre em contradições sobre eles); o certo é que sua delimitação conceptual constitui um dos pontos mais obscuros dessa doutrina. Em sua conhecida obra "A integração da personalidade" dedica um extenso capitulo, de 43 paginas, a sua descrição sem que em nossa modesta opinião consiga esclarece-la. Afirma em tal trabalho que seus arquétipos constituem uma paráfrase do eidos (idéias) platônico e são les eternelles incrées, determinados formalmente e não em conteúdo material. O arquétipo é tão imanente como o sistema axial que potencialmente determina a formação de um cristal, sem ter uma existência concreta. Constitui uma "presença eterna que pode ou não ser percebida pelo conhecimento" e apresentar-se ante ele sob diversas formas concretas. Levy Bruhl designa algo parecido com suas "representations collectives", que concernem a sucessos e vivências típicas, primitivas, que mais tarde serão a base de fábulas e mitos tradicionais. Jung denominou os primeiros "imagens arcaicas" porem preferiu depois tomar o termo arquétipo (de Stº. Agostinho) por não prejulgar a natureza de sua representação concreta. A soma dos arquétipos constitui a soma de todas as possibilidades latentes da psique humana.

Imperativa obrigação de cada um é a de enfrentar a si mesmo e de olhar para si, interrogando os seus próprios mistérios e surpreendendo a riqueza incomensurável de seu mundo interior, tão grande que o indivíduo pode perder-se nele. Para que isso não ocorra, isto e, para evitar que alguém "se extravie em sua própria mesmidade", a psicologia complexa trabalha sem descanso e nos oferece um segundo fio de Ariadne: a interpretação das formas representativas dos arquétipos individuais, através do estudo paciente da pré-história, da mitologia, do folclore, das religiões, da alquimia e das concepções das antigas filosofias e cosmogonias...

Ocupada em tal tarefa, a psicologia complexa propende a conseguir que cada qual consiga construir e reconstruir a sua individualidade criando, mediante a aplicação de seu eu em certas zonas de seu inconsciente, um núcleo energético de poder superior que seja capaz de superar a autonomia existente entre a consciência e o inconsciente, integrando as diversas forças instintivas que se acham concentradas nos arquétipos, tantas vezes citados. A esse eu ampliado e superpotente, resultante do laborioso processo da procura e do encontro consigo mesmo, chama-lhe Jung "Selbst" e nós propomos traduzi-lo por mesmo ou mim; isto e, pois, o eu inicial e mais uma série de tendências e conteúdos gnósticos que, ao se englobarem nele, deslocam o centro da atividade psíquica, colocando-o em um ponto equidistante do âmbito individual. Se o eu se acha no centro da consciência, o mesmo encontra-se no centro do indivíduo; sua esfera fera território de ação se chama mesmidade (Selbstheit). Para obter-se este mesmo ou mim é necessário percorrer um longo caminho no qual achamos sucessivamente as instâncias dos arquétipos fundamentais da humanidade (*).

O primeiro deles e a sombra. Jung define-a como o "irmão oculto", como a "invisível cauda de sáurio que todo homem tem atrás de si" ou como "a parte inferior e menos recomendável" do indivíduo. Com isto quer exprimir que a sombra correspondente ao conjunto de nossas reações primárias procede da época selvagem da humanidade; o seu significado a demoníaco e sinistro: e o Mefistófeles de Fausto.


(*) A tarefa de autoformação da individualidade é chamada por Jung "processo de individuação", enquanto que ao esforço para conseguir destacá-la de entre as demais que integram o corpo social, é por ele designado como "trabalho de individualização".


O segundo arquétipo, já mais profundo e separado normalmente do eu, é denominado por Jung anima no sexo masculino e animus no feminino.

Acerca dele e de suas formas expressivas é muito mais explícito que a respeito do anterior, que a verdadeiramente apenas esboçado em suas descrições. A anima corresponde à imagem da mãe primitiva ou ancestral e simboliza quanto de feminino tem o individuo. Não deve identificar-se com a alma, se bem que pareça formar parte dela. Constitui "uma fonte de vida por trás da consciência, que não pode ser integrada nesta e que contudo a condiciona" (Jung, ob. cit.) ; esse caráter vital ou energético - fons et origo da criação psíquica - que se atribui ao dito arquétipo, explica a multiformidade e complexidade das imagens que utiliza para mostrar-se ante o indivíduo - Vênus ou uma bruxa, frágil donzela, ou enérgica amazona, anjo ou demônio, mãe ou prostituta... Em qualquer dessas formas contraditórias é capaz de aparecer nas visões e sonhos. Na literatura e Kundry (Parsifal) ou Andrómeda (Perseu), Beatriz (Divina Comédia) ou "Ella" (R. Haggard), Antinea (Atlântida) ou Helena de Tróia (Erskine)... como mãe, inspira nosso primeiro sopro e recolhe o nosso último alento; como a vida, é, ao mesmo tempo, absurda (irracional) e significativa (lógica). Note-se, além disso, que Jung se compraz em destacar a cada passo esse caráter ambivalente e antinômico de todos os produtos e fatos psíquicos; nesse arquétipo encontra uma das melhores ocasiões para desenvolver tal gosto a critério. Na terceira fase desta viagem as profundidades do inconsciente coletivo aparece o arquétipo de saber primitivo, isto a do mago, que no sexo masculino pode apresentar-se sob a forma de profeta, caudilho etc., e no sexo feminino o faz com magna mater sob a aparência de deusa da fecundidade, pitonisa, sibila, sacerdotisa etc. Em Nietzsche esse setor da individualidade personifica-se em Zaratustra. Essas imagens são designadas por Jung com o comum qualificativo de personalidade maná e seu descobrimento coloca o indivíduo em frente a um núcleo de forças que lhe injeta confiança em seu saber e lhe permite tornar-se independente da influência que sobre ele exerciam as imagens de seus progenitores. Em suma, esse velho homem sábio, espécie de Jeová, Júpiter, Wotan, Grande Espírito ou Mago, a uma figura híbrida que possui todos os segredos e arcanos do mundo: à medida que o indivíduo se deixa levar por ela, sente-se seguro e onipotente. Em alguns delírios de grandeza e estados oniróides da esquizofrenia vemo-la em ação, dirigindo todo o pensamento do indivíduo que adquire categoria de homo divinans.

Deixando de lado as representações pessoais dos três arquétipos até agora mencionados, existem muitas imagens impessoais dos mesmos, mas estas não os representam em seu estado de pureza e sim no processo de transformação que operará no seio da individualidade para a criação de seu novo centro diretor: o mesmo. Na medida em que este se precisa e condensa aparece então uma nova categoria de símbolos arquétipos que denotam sua existência e mostram, como característica comum, uma forma circular (correspondente em Jung ao circulo mágico empregado no lamaismo e no ioga tântrico como intra). Estes símbolos, reveladores do processo formador da mesmidade, isto é, símbolos mésmicos (!) são designados pela psicologia complexa com o qualificativo de mandalas.

O próprio Jung escreve acerca deles as seguintes e desencorajantes linhas (Ob. cit. pág. 178) : "o que podemos dizer hoje sobre o simbolismo mandálico e o seguinte: que representa um fato psíquico autônomo, conhecido pelas manifestações que se repetem continuamente, e se encontram sempre idênticas. Parece uma espécie de núcleo atômico acerca de cuja íntima estrutura e significado último não sabemos nada. Podemos, pois, considerá-lo como a imagem espetral real, isto é, afetiva, de uma atitude de consciência que não pode formular nem o seu objeto nem o seu propósito e cuja atividade por tal renúncia se acha completamente projetada no centro virtual da mandala. Este só pode suceder par compulsão e a compulsão sempre chega a uma situação na qual o indivíduo não conhece o meio de auxiliar-se de outra maneira". Evidentemente esse parágrafo não esclarece o conceito que visamos alcançar.

Porém, outras dificuldades maiores vem somar-se às já encontradas por quem deseje seguir até o fim a peregrinação que impõe Jung para chegar a ser um indivíduo redondo e completo, isto é, possuidor de um grande mesmo e capaz de integrar tudo quanto traga em si. Tais dificuldades nascem da emergência, cada vez maior, de outros arquétipos ainda mais obscuros que os já assinalados. Com efeito, junto aos símbolos mandálicos se apresentam também as tétradas que, segundo parece, também simbolizam a mesmidade, dando-lhe forma tetrassômica ou quadricorpórea, - correspondente às quatro funções fundamentais antes descritas.

Daí, diz Jung, o prestigio universal da Cruz, dos pontos cardiais, do carbono (quadrivalente) ...

Sendo nosso propósito o de apresentar somente os pontos essenciais de cada doutrina, acreditamos que o já exposto bastará para fazer-se uma idéia do caráter distinto da atuai obra junguiana. Como síntese gráfica da mesma permitimo-nos transcrever em seguida o esquema XVII, com que Jacobi ilustra a posição que tem nos diversos pianos da individualidade os seus principais elementos, de acordo com essa doutrina:


TÉCNICA, INDICAÇÕES E LIMITAÇÕES DA PSICOTERAPIA JUNGUIANA

Pelo exposto acerca das idéias que presidem a concepção atual de Jung sobre a individualidade humana concebe-se sua afirmação de que seu sistema curativo não é tanto de ordem terapêutica (medica) quanto de natureza mística (religiosa) : não se trata tanto de curar o indivíduo de sua relativa miséria existencial, fazendo-o subir de seu miópico estado psíquico e descobrir o manancial inesgotável de reservas que encerra, em potência, o seu inconsciente ancestral ou coletivo. Ao incorporar ao seu núcleo egótico estas forças propulsoras e criar assim uma robusta mesmidade - que tenha em conta suficientemente a vocação (voz interior) individual - obtém-se uma síntese psíquica que permite ao indivíduo individuado, isto é, ao indivíduo que terminou o seu processo de individuação, superar todos os conflitos, tanto internos como externos e gozar de uma paz e de uma satisfação ate então desconhecidas dele.

A exploração dessas misteriosas zonas em que reinam os arquétipos antes descritos faz-se principalmente utilizando o material onírico que o paciente deve liberar intacto ao psicoterapeuta. E, além disso, as chamadas vivências de revelação, constituídas por súbitas emergências de imagens na consciência, de sonhos, fantasias ou impulsos de expressão artística (plástica ou literária) que ao serem devidamente analisados demonstram possuir um caráter simbólico e revelar, portanto, as fontes de que emanam.

Com isto já se deduz que pessoas que possam ser submetidas a essa terapêutica deverão ter não escassa cultura e uma rica vida interior; não podem ser imaginativamente secas e deverão estar propensas a submergir em qualquer momento nesse particular estado de divagação ou devaneio que e a chave de exploração psicanalítica.

É incompreensível, porém certo, que Jung conceda cada vez menos importância a sua prova das associações condicionadas na exploração de seus enfermos; sem dúvida, a isso devido à nova orientação de suas concepções.

Se agora nos perguntamos que tipo de doentes a mais tributário de seguir esse Heilweg (caminho da cura) que constitui a psicoterapia junguiana, dar-nos-emos conta de que são antes de tudo, os que, chegando a idade madura, sofrem ao ver o insucesso de suas vidas: tratam de reviver suas existências e se compenetram de que é demasiado tarde para isso; procuram consolar-se com a promessa de um venturoso alem e falta-lhes a fé religiosa, tentam resignar-se vivendo como até então e não tem a energia para conformar-se. Tudo isso os leva ao suicídio, à neurose ou à perversão, mas em todo caso os desvia progressivamente e os priva de paz e de satisfação. Em tais condições, ao psicoterapeuta resta proporcionar-lhes uma doutrina que tenha encanto de alguma bela criação artística, força sugestiva de uma tese religiosa e o poder de convicção persuasiva de uma obra científica. - Que importa que tudo isso não seja verdade, se o indivíduo chega a aceitá-lo como coisa real, que se lhe impõe como um ato de fé?

O psicoterapeuta impele então o enfermo ao desprezo de seus sintomas; estes equivalem ao preço de sua expiação pela ignorância de si mesmo. Já não diz, como o faziam Freud ou Adler, que são o preço que paga pela realização (deformada) de seus desejos inconfessáveis ou o preço de sua covardia. Em todo o caso, são algo que é necessário desentender na medida em que o enfermo se interessa pelo verdadeiro problema que tem diante de si e que é, nada mais nada menos, que o de seu destino e o da sua própria formação e autodeterminação. Assim como Freud leva certos indivíduos a um pessimismo e cepticismo e Adler os aguilhoa e estimula censurando-lhes suas faltas de sinceridade e de coragem, Jung os reanima e alegra assegurando-lhes "que ainda não haviam chegado a ser o que eram" e convencendo-os de que abrigam "infinitas possibilidades criadoras".

Facilmente se adivinham as limitações deste objetivo: deixando de lado a escassa cultura ou o excessivo realismo dos pacientes, ainda prescindindo de se são ou não jovens e céticos, a evidente que Jung não pode ajudar de um modo efetivo nem aos enfermos de psicoses propriamente ditas, nem tampouco aos de psiconeuroses complicadas como são, por exemplo, as de tipo impulsivo e obsessivo, pois nestas a mesma estrutura dos sintomas impossibilita o tipo de exploração necessária para chegar à interpretação prevista. Não tendo então um modo de vencer a resistência individual - pois isto equivale a pressupor no indivíduo uma atitude demoníaca que a negada por sua doutrina - o psicoterapeuta junguiano é incapaz em tais casos de "romper a fachada sintomática" : a religião privada do neurótico. A tais enfermos importa um descobrimento de seu anima ou conhecer as expressões de seu velho mago : desejam ser aliviados de sua angústia, ou quando menos, uma prova palpável e evidente de que estão na pista para consegui-lo. Nem uma nem outra estão à mão neste tipo de psicoterapia.

E o mesmo poderíamos dizer dos inúmeros casos de "organo-neuroses" e de transtornos em que se imbricam as causas somáticas e psíquicas produzindo um complicado quadro mórbido que justifica um ataque pluridimensional em todas as frentes e com todas as armas. Dada a real independência que Jung concede ao território da psique (para o que admite uma causalidade fechada, do mesmo modo que Freud, em seus primeiros ensaios) vê-se adstrito, forçosamente, a renunciar ao use de meios e recursos que se podem integrar comodamente num plano terapêutico menos rígido que o imposto pelo seu credo.

Isso explica a escassa difusão que logrou esta escola existem poucos psicoterapeutas junguianos nos países latinos, quase nenhum na América do Norte, e também o próprio autor do sistema parece interessar-se hoje muito mais em resolver problemas relacionados com a astrologia, alquimia, arte, religião e cosmologia, do que com a prática médica.

Contudo, ainda que trazendo consigo a euforiante esperança de uma troca estrutural baseada na incorporação de novos elementos, até então mantidos em estado potencial, é indubitável que alguns dos conceitos dessa doutrina podem e devem integrar-se na psicoterapia clínica: são mais efetivos, e até, se quisermos, mais sugestivos para o indivíduo que a "consciência da culpa" ou "complexo de castração" ou 0 "instinto tânico" que se podem manejar a torto e a direito, e requerem uma longa atuação educativa no enfermo por parte do psicanalista.

BIBLIOGRAFIA

CARL G. JUNG. - The Integration of the Personality, Farrar, Nova Iorque.

C. JUNG. - Metamorphoses et symboles de la Libide, Ed. Montaigne, Paris, 1931.

C. JUNG. - La Realidad del Alma, Ed. Losada, Buenos Aires, 1940.

C. JUNG. - Modern Man in Search of a Soul, Ed. K. Paul, Londres, 1933 (ver os capítulos: Problems of Psychoterapy e Psychotherapists or the Clergy. A. Dilema).

C. JUNG. - Psychology and Religion. Yale Univ. Press. 1938.

J. JACOBI. - Die Psychologie von C. G. Jung. Racher, Zilrique, 1940.
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O CORPO

A CONSTRUÇÃO DO CORPO E SEUS DESTINOS

Uma visão Psicanalítica
Yara Dalva Simão

“Suportar as verdades desnudadas, e enfrentar as
circunstâncias com calma absoluta,
eis o ápice da soberania.”
Ernst Jones



INTRODUÇÃO

No reino animal, o ser humano constitui a espécie que apresenta o maior grau de complexidade na escala evolutiva. Ele ocupa uma posição especial na natureza, tem sua inteligência e sua capacidade de raciocínio desenvolvidas, faz uso da linguagem articulada e é o que nasce em maior estado de desamparo e dependência. Por causa dessa dependência, o bebê humano precisará, desde o primeiro momento de vida, de cuidado e proteção. Esses virão pela relação do bebê com um adulto, mais especificamente com a mãe, com quem será estabelecida uma importante relação afetiva. A alimentação e os cuidados com o corpo do bebê serão os elementos responsáveis pelas suas primeiras experiências de prazer e desprazer.

Aconchegado no colo materno e levado ao seio para se alimentar, mais que saciada a fome, ele experimentará um momento pleno de satisfação que, a partir de então, tentará repetir inúmeras vezes, contudo sem jamais consegui-lo. Aquele primeiro momento único é irremediavelmente perdido é denominado por Freud de primeira experiência de satisfação.

A privação, oriunda dessa experiência, marca-o então com falta, a incompletude e abre as portas do desejo humano. Ele tentará reviver essa primeira vivência de satisfação por meio de alucinação. Dessa forma instaura-se a matriz do psiquismo humano, cuja evolução e desenvolvimento serão sempre marcados por percalços e vicissitudes.

É na lida com o filho que a mãe, pelo ritual de amamentação, higiene, limpeza, carinho e brincadeiras, começará a marcar, a pontuar o corpo da criança, dando suporte ao desenvolvimento psicossexual, que resultará, entre outras coisas, na constituição do corpo erógeno.

Corpo erógeno é o corpo investido libidinalmente, sabendo-se que a libido é a energia da pulsão sexual.

O desenvolvimento psicossexual humano se dá no entrelaçamento das fases oral, anal, fálica e genital, havendo uma predominância na organização da libido, característica a cada uma delas. (É importante não considerar esse acontecimento como uma sucessão gradativa e rígida, onde as etapas seriam excludentes umas das outras.) Nesse movimento constitutivo, a relação com a mãe é da maior importância, porque é ela quem fornece ao filho informações que permitirão a construção, pela criança, da imagem e percepção de si mesma. As palavras ou os significantes virão sempre carregados de conotação (fornecidas e interpretadas pela mãe e pela criança).

Na seqüência evolutiva do desenvolvimento psíquico da criança, alguns momentos se destacam pela importância de suas conseqüências. A capacidade de representação, adquirida com a aquisição da linguagem e do pensamento, é um desses momentos.

A criança aprende a representar o que vê em imagens e o que ouve em palavras. A representação do que é visto é registrada em imagens; quando esses registros acontecem muito precocemente são denominados de traço mnésico, que posteriormente poderão se articular com representação de palavras.

A possibilidade para a criança de representar psiquicamente o que vê e o que ouve lhe permitirá a conquista consecutiva da simbolização. A simbolização é a representação indireta de uma idéia, de um pensamento, de um desejo. É a aquisição dessa possibilidade que permitirá ao ser humano, entre outras coisas, lidar com a angústia por meio de representantes simbólicos que a abrandem ou dissipem. Exemplificando, se a presença materna significa amparo e proteção, sua ausência mergulha o bebê em angústia. Ele, então, inventa um representante ou substituto para sua mãe, com que lidará para aplacar sua angústia na falta dela. Winnicott, psicanalista e pediatra inglês, denomina essa primeira criação infantil de "objeto transicional". A chupeta, a ponta do dedo, a beiradinha da fronha, a dobrinha do cobertor, com as quais a criança se apega para dormir, constituem a representação simbólica da ausência da mãe.

Para que ocorra essa substituição, é feita uma passagem que implica em um deslocamento e uma metáfora.

Adquirida essa capacidade, deslocamentos e condensações, metáforas e metonímias serão recursos sempre utilizados para lidar com a angústia e os conflitos psíquicos. Os sintomas neuróticos serão oriundos desse movimento. Nesse sentido, portanto, a neurose é uma conquista positiva, constituindo-se em uma saída na luta do conflito psíquico. O maior ou menor grau de sucesso nessas passagens serão responsáveis pela melhor ou pior resposta do indivíduo em seu comportamento e em sua relação com as pessoas e com a vida.



MEDICINA E PSICANÁLISE

De maneira geral, quando alguém adoece ou é acometido de qualquer dor física, procura um médico. É examinado, procura-se fazer um diagnóstico e é proposto um tratamento. A cura é a expectativa e a tentativa de ambas as partes. O médico examina o indivíduo lidando com seu corpo biológico, de carne e osso, organismo vivo onde a harmonia da saúde foi quebrada.

Ele tem acesso a inúmeros recursos, que lhe possibilitam uma maior aproximação do diagnóstico, como radiografias, exames laboratoriais, ultra-sonografias, endoscopias, cintilografia, isótopos radioativos, tomografia computadorizada, ressonância magnética etc.

Foi o diagnóstico, outros recursos são usados para o tratamento, que incluem os tratamentos clínicos, os tratamentos cirúrgicos convencionais, os tratamentos cirúrgicos com auxílio de fibra ótica, laser, os tratamentos radioterápicos, quimioterápicos, todos eles contando sempre com um arsenal de drogas e novas tecnologias que, a cada dia, avançam mais na busca do sucesso do tratamento das doenças, possibilitando a recuperação da saúde do paciente.

Há, todavia, um segundo tipo de paciente. Sua dor e seu sofrimento são de outra ordem. Fobias, inibições, depressões, angústias, são de modo geral, as queixas mais comuns de quem procura a psicanálise. São indivíduos que trazem, junto com o sofrimento psíquico, questões existenciais com as quais gostariam de lidar. São atendidos pelos psicanalistas e a psicanálise pode ser indicada e praticada como possibilitadora de diminuir o sofrimento e conduzir o indivíduo a responder algumas questões que ele faz sobre si mesmo e sobre sua relação com a vida.

Grande parte do primeiro tipo de pacientes, aqueles que sofrem de males físicos e buscam a cura na medicina, fica satisfeita. Também um número considerável de pacientes do segundo tipo, que recorre à psicanálise como tentativa de ajuda consegue um resultado satisfatório.

Portanto, a medicina, com seus milhares de usuários, vem cumprindo bem seu papel científico e seu compromisso social. A psicanálise, bem mais restrita quanto ao seu número de praticantes e diferente em sua proposta final, sendo marginal e por isso ainda mal compreendia, por sua vez corresponde aos princípios teóricos e éticos do seu genial criador, Sigmund Freud, 100 anos após sua criação.



PSICOSSOMÁTICA

Um terceiro tipo de paciente é responsável pelo surgimento da psicossomática, uma nova abordagem médica. São pacientes que não encontram lugar definido junto aos médicos, nem junto aos analistas.

Por quê Porque nem o atendimento médico convencional, nem a psicanálise clássica, são de grande valia.

O que pretende, então, a psicossomática, e qual é o interesse da psicanálise nessa questão?

Aumenta a cada dia o número de pacientes nos consultórios de psicanálise encaminhados por médicos, querendo se tratar de doenças de fundo psíquico.

Tem sido comum, também, o irrompimento de fenômenos psicossomáticos de pacientes em análise. Esses fatos fazem com que a psicanálise se interesse cada vez mais pelo mecanismo responsável pelo desvio para o corpo do que deveria ser da ordem do psicológico.

Se a psicanálise se interessa por tudo que diz respeito ao humano, sem colocar barreira demarcando o que é normal e o que é patológico, buscando as determinações dos atos e motivações inconscientes, o adoecer não pode estar fora dos interesses dessa disciplina.

Cabe à medicina psicossomática explicar a maneira como o corpo responde a partir de conflitos rejeitados pela consciência.

Cabe ao psicanalista levar o paciente a dar nome à lesão ou à doença segundo seu código pessoal. O paciente precisa encontrar uma palavra que simbolize algo representado na lesão. Se essa lesão ou doença não puder ser traduzida ou simbolizada, não interessa à psicanálise sua explicação.

O conhecimento da origem e da causa dos fenômenos psicossomáticos facilitaria, para médicos e psicanalistas, o estabelecimento do campo de ação e do tipo de intervenção de cada profissional, respectivamente.

O ponto comum entre médicos psicossomáticos e psicanalistas está nos pacientes, que os procuram em função de um sofrimento.

Todavia, as duas disciplinas têm visões, abordagens e propostas opostas. A medicina psicossomática pretende a cura visando ao indivíduo como um todo, em que as partes se completam.

Um dos pilares da teoria psicanalítica é a incompletude do indivíduo, que já nasce marcado pela falta, daí sua condição de desejante. A psicanálise faz dessa incompletude sua possibilidade de trabalho.

Essa oposição, porém, não impede que psicossomáticos e psicanalistas tentem aproximações conceituais e práticas que possibilitem um trabalho conjunto.

A resposta positiva, já constatada, da psicanálise no tratamento de fenômenos psicossomáticos, não é, entretanto, exclusiva dessa abordagem; inúmeras outras práticas psicoterápicas também têm obtido resultados favoráveis. Isso nos autoriza a admitir um lado de sugestionabilidade nessas manifestações no corpo, o que reforça seu aspecto psíquico, justificando o interesse da psicanálise.



CORPO E IMAGEM CORPORAL

Partindo do princípio de que o objetivo de Freud foi demonstrar a íntima estrutura de uma perturbação neurótica e a determinação de seus sintomas, a suspeita de que a manifestação desses sintomas possa ocorrer no corpo nos parece, cada dia mais, uma hipótese viável. Obviamente que com uma estrutura diferente do sintoma neurótico.

O que será, então, que levaria alguém a substituir um sintoma neurótico por um fenômeno psicossomático?

Se o corpo é a estrutura física do homem, é também o lugar da vida e da morte. A lesão no corpo é um ataque à imagem corporal e o indivíduo se vê violado em seus direitos do corpo que tem e do corpo que é.

A medicina lida com o corpo que temos; corpo que se movimenta, objeto de julgamento e valorização; corpo mensurável, comparável, de competição.

A psicanálise lida com o corpo que somos; é o nosso vivido. Corpo carnal que não é apenas um instrumento, mas também um lugar. Lugar pelo qual o mundo atinge um mistério; aquilo que cada um de nós é. Não é um corpo que pede prótese, mas que pede significação e sentido. Corpo que habita a linguagem; lugar do desejo e lugar do gozo.

Cada um de nós possui um registro psíquico do próprio corpo e qualquer lesão ou mutilação desse corpo é vivida também em nível psíquico.

A criança recém-nascida é inicialmente um ego corporal que se relaciona com o mundo por meio de sensações e percepções. Os registros dessa relação constituirão pequenos núcleos de ego rudimentar que vão se integrando lentamente pela experiência cotidiana do bebê. Essa interação resulta das descobertas parciais que ele vai fazendo de seu corpo, mãos, pés, pernas, barriga, genitais, somadas à percepção que ele tem da forma como a mãe o vê e como ele se relaciona com ela. Gradativamente, em função do seu desenvolvimento físico e emocional, somados à sua interação com o meio ambiente, esses registros irão "tomando corpo", na acepção literal do termo, isto é, vão constituindo a representação psíquica que a criança (e posteriormente o adulto) terá de si mesma, formando sua primeira identidade, à qual denominamos imagem corporal. Essa representação psíquica está ligada à qualidade da relação da criança com seu mundo e seu corpo e, em função disso, estará melhor ou pior registrada, mais forte ou mais frágil. Essas nuanças têm suas raízes oriundas das experiências mais arcaicas vividas pelo bebê e sua mãe. Isso significa que cada órgão ou membro representado psiquicamente é investido de libido e passa a fazer parte de um código pessoal e particular de significação.



CORPO SIMBÓLICO, CORPO IMAGINÁRIO, CORPO REAL

O campo da psicanálise é delimitado pela linguagem e pelo sexo. Isso permite estabelecer dois estatutos do corpo: o corpo falante e o corpo sexual, ou que goza.

J.D. Násio define o corpo falante como "o corpo que interessa à psicanálise, não por ser um corpo de carne e osso, mas um corpo tomado como um conjunto de elementos significantes". Corpo falante é, portanto, aquele onde os significantes falam entre si.

O corpo simbólico é o conjunto ou corpo de significantes que insere o indivíduo numa ordem simbólica, preestabelecida e veiculada pela linguagem. As leis da cultura e da linguagem onde o indivíduo se insere são designadas pela ordem simbólica. Nesse sentido, o simbólico é a cultura, que é anterior ao indivíduo. A articulação cultura/indivíduo é fundada e constituída pela dimensão simbólica.

Para Lévi-Strauss, "toda cultura pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos, no topo dos quais se situam a linguagem, as regras matrimoniais, as relações econômicas, a arte, a ciência e a religião”.

O corpo imaginário é a imagem externa que desperta o sentido em um indivíduo. A imagem que eu tenho do meu corpo me foi dada a perceber a partir de fora, vista pelo outro. Portanto, eu me vejo como fui vista. Minha imagem foi projetada e me foi devolvida. Preciso, então, do outro para me constituir enquanto imagem e para ter acesso à linguagem e aos significantes.

O corpo real é o lugar do gozo. Gozo, em psicanálise, significa dor, desgaste, gasto, exigência. Corpo real é sinônimo de gozo. A lesão psicossomática traz sempre um traço do real.

O campo da psicanálise está delimitado pela articulação do simbólico, do imaginário e do real, que nunca se apresentam isoladamente por estarem atravessados uns pelos outros.

Há uma disjunção entre o corpo com que a medicina lida e o corpo que interessa à psicanálise. Eles pertencem a campos diferentes. O campo da medicina é da ordem da objetividade. Se o cliente reclama do braço, da perna ou do tumor, o médico, a partir de um parâmetro anatômico, cuidará do braço, da perna ou do tumor. Já o campo da psicanálise é da ordem da subjetividade. Braço, perna ou qualquer outro membro ou órgão pode, por deslocamento ou condensação, representar outra coisa ou simbolizar uma fantasia. É por isso que o corpo anatômico ou biológico não interessa à psicanálise. A descoberta de que o sintoma neurótico é oriundo de um salto do físico para o psíquico, por meio de representações inconscientes e suas respectivas simbolizações, ocorreu porque a psicanálise fez esse movimento. Freud, médico neurologista, a partir de uma escuta que foi além do corpo biológico, fez essa passagem, deslocando a linguagem de suas clientes do seu corpo anatômico para outro corpo, onde os significantes tentavam dar conta de um sofrimento que as aprisionava numa fantasia sexual infantil. É por essa trilha aberta por Freud que a psicanálise tem tentado fazer o caminho de volta no estudo dos fenômenos psicossomáticos. Parece que é exatamente nesse trecho de passagem, do salto do físico para uma representação fora do corpo, que acontece um curto-circuito e essa passagem não acontece. É nesse ponto e lugar que se encontram, psicossomáticos e psicanalistas, debruçados sobre o mesmo fenômeno e cheios de indagações.

Como a psicanálise pode iluminar essa área sombria do comportamento humano?



CONSTRUÇÃO DO CORPO E SEUS DESTINOS

O desenvolvimento psíquico e emocional do indivíduo está, numa primeira etapa da vida, inteiramente vinculado ao seu desenvolvimento, físico e biológico. O corpo oferece as condições indispensáveis, por meio das necessidades de autoconversação, para o movimento de constituição do aparelho psíquico.

Fome, sono, sede e frio são responsáveis pelos movimentos iniciais que inauguram a primeira inter-relação que o ser humano constitui em sua vida: mãe e bebê.

Atenta desde o início às necessidades físicas do filho, cabe à mãe interpretar e socorrer os apelos infantis. Ela vai nomeando os desejos do bebê e as partes de seu corpo.

O bebê, por sua vez, vai se descobrindo e esboçando os rudimentos da constituição de sua primeira identidade. É com intenso júbilo que, por volta dos 18 meses, ele conquista sua alteridade, se percebendo como outro, separado da sua mãe. A conquista da individuação não é tranqüila. O protótipo biológico da vida intra-uterina deixa suas marcas no recém-nascido, buscado na fantasia primordial do ser humano de um só corpo para ambos. As necessidades vitais de ambos são atendidas pelo corpo da mãe. Reeditar essa fantasia de unidade paradisíaca é criar a ilusão de completude, da não-separação.

Cabe à mãe propiciar condições ao bebê de separar-se dela, gradativamente, constituindo-se em um outro ser, com corpo e identidade próprias.

Nos momentos de angústia e solidão, o bebê tentará mergulhar na ilusão de unidade corporal, evitando a ameaça da separação. A mãe será responsável pela maior ou menor possibilidade de o bebê lidar com esses movimentos com menos angústia.

Para que haja separação e individuação, o bebê precisa que a mãe mantenha com ele uma distância afetiva e tranqüilizadora, que seja ideal no sentido de nem muito perto nem muito distante. É esse espaço, que Winnicott denomina de "espaço transicional", que o bebê poderá simbolizar suas representações lidando com a angústia da ausência. A aquisição da linguagem é também um ganho que possibilita à criança abrir mão da linguagem corporal para fazer uso de uma nova forma de comunicação. No estádio não-verbal, ainda nos primórdios da vida psíquica, o corpo é parte inseparável da constituição do psiquismo. Gradativamente, com a aquisição do pensamento, a capacidade de representação, com a linguagem e a possibilidade de simbolizar, o bebê lança mão de mecanismos de incorporação, introjeção, projeção e, finalmente, identificação. Ele consegue, então, distinguir o que é como ele e o que é diferente dele. A partir de então, psiquismo e soma começam a se diferenciar, constituindo diferentes contextos do ser humano.

A construção do corpo erógeno não está desvinculada da construção do corpo anatômico, uma vez que percalços em um deixam marcas no outro. Dores, doenças, distúrbios alimentares ou do sono, tropeços do corpo biológico poderão interferir nos destinos da constituição do corpo erógeno com suas fantasias subjacentes e vice-versa: angústias, pânico, inseguranças poderão levar o bebê a adoecer fisicamente. Realidade material e realidade psíquica se entrecruzam e, a partir de uma insatisfação, a realidade psíquica se forma, resultando em uma montagem simbólica e imaginária, constituída, portanto, de imagens e significantes.

Se o que interessa à psicanálise é a realidade psíquica, o que nos interessa no fenômeno psicossomático é a sua desmontagem imaginária e simbólica. A ferida, o caroço, a urticária, a asma ou qualquer outro fenômeno psicossomático são uma metáfora grosseira que não finalizou sua tarefa de simbolização; faltam palavras que, circulando no discurso, "descolem" do corpo anatômico o que pertence ao corpo erógeno.

O trabalho de análise precisa possibilitar ao paciente criar um "espaço transicional" que não houve, para que ele prossiga no seu trabalho de representações e simbolizações, onde os "objetos transicionais" percam sua materialidade e ganhem o estatuto de fantasias inconscientes, deslocando para o corpo erógeno e que está no corpo biológico. Isso implica transformar em sintoma neurótico um sintoma físico.

Os tropeços e obstáculos na construção do corpo provocam desvios e conseqüências posteriores. Os fenômenos psicossomáticos constituem uma parte dessas conseqüências. A renúncia à materialidade é decorrente da possibilidade de representar e simbolizar, aquisição indispensável ao desenvolvimento do psiquismo humano. A impossibilidade de descolagem da materialidade é responsável, entre outros percalços, pelo fenômeno psicossomático.

O fenômeno psicossomático geralmente eclode numa circunstância que mobiliza de forma excessiva as emoções do indivíduo. São emoções muito fortes, como ódio, angústia, separações, perdas, que vão além da capacidade de o paciente lidar com essas situações. O adoecer é a "saída" que eles encontram como solução, assim como o sintoma neurótico é a saída encontrada pelo conflito psíquico.

Como acreditamos que as manifestações psicossomáticas estão ligadas também ao psiquismo humano, imaginário, real e simbólico se articulam em sua encenação. Corpo anatômico e corpo erógeno estão aprisionados um no outro e a lesão seria o traço do real entrelaçado imaginariamente numa manifestação que poderíamos denominar de "real do corpo".

Os desvios na sexualidade humana em sua constituição podem ainda resultar nos invertidos sexuais, travestis, transexuais, fetichistas etc. Este texto pretende explorar apenas o viés da psicossomática.

Trabalhar no sentido de desvendar os mistérios e artifícios psíquicos do fenômeno psicossomático me parece ser mais do que um interesse da psicanálise; é um compromisso ético.



REFERÊNCIAS

1. Benoit P. Psicanálise e Medicina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989.

2. Cardoso e Cunha B. Psicanálise e Estruturalismo. Assirio e Ahim Editora, 1981 .

3. Freud S. "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade". Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol XII. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1972.

4. Greps. Le Phénomène Psychosomatique et la Psychanalyse. Navarin Editeur, 1986.

5. Lacan J. Écritis. Paris: Édition du Seuil, 1966.

6. McDougall J. Théâtres du Je. Paris: Éditions Gallimard, 1982.

7. _____. Théatres du Corpos. Paris: Editions Gallimard, 1989.

8. Násio J.D. Cinco Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1983.

9. _____. Psicossomática. As Formações do Objeto a. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

10. Pelicier I. Conferência no Congresso Internacional sobre o Corpo. Rio de Janeiro, 1983.

11. Winnicott D. Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1978.
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